O que foi a Revolução Farroupilha (1835–1845)? Causas, conflitos e consequncias

Entenda a Revolução Farroupilha em um guia completo: causas, líderes, batalhas, República Rio-Grandense, Porongos e o fim da Guerra dos Farrapos.

Por Felipe A. Clementino

Você provavelmente já ouviu falar na Revolução Farroupilha, não é?
E se o nome não soar familiar, aposto que ao menos o termo “farrapo” já passou pelos seus ouvidos — seja na aula de História, em algum comentário solto ou até como sinônimo de algo gasto. Mas aqui nessa história, farrapo não tem nada de irrelevante. Pelo contrário, foi sinônimo de resistência, identidade e confronto direto com o poder imperial.

Pois bem, ajusta o mate e segue a leitura.

A Revolução Farroupilha foi o conflito armado interno mais longo da história do Brasil, estendendo-se de 1835 a 1845. Também conhecida como Guerra dos Farrapos, a revolta colocou frente a frente a província de São Pedro do Rio Grande do Sul e o governo central do Império do Brasil. Não era apenas uma briga regional: o embate envolvia disputas fiscais, tensões políticas e interesses territoriais que vinham se acumulando havia anos.

E a coisa foi longe. Tão longe que o conflito culminou na proclamação de uma república separatista — a República Rio-Grandense. Foi uma experiência inédita de governo republicano em solo brasileiro no século XIX, surgida muito antes de o Brasil, oficialmente, deixar de ser monarquia.

Ou seja, longe de serem “farrapos” no sentido pejorativo, esses revolucionários costuraram um dos capítulos mais intensos e duradouros da história política brasileira. E isso é só o começo.

A Revolução Farroupilha escancarou tensões estruturais profundas da sociedade imperial brasileira. Como manter um país unido quando o poder é excessivamente centralizado, os impostos pesam de forma desigual e as elites regionais sentem que pagam a conta sem participar das decisões?

No centro do conflito estavam questões que iam muito além do campo de batalha. A centralização política do Império do Brasil, a política tributária considerada injusta, os interesses das elites agrárias locais e, sobretudo, as contradições entre o discurso liberal e a permanência da escravidão formavam um barril de pólvora. Ao longo de quase dez anos de guerra, o movimento farroupilha expôs os limites do projeto imperial de unidade nacional e deixou evidente o desafio de governar um território vasto, economicamente diverso e socialmente desigual.

E é exatamente aí que este guia entra. Este guia completo sobre a Revolução Farroupilha te pega pelo braço e te leva, passo a passo, pelo que realmente aconteceu: o cenário histórico que armou essa confusão, as causas econômicas e políticas, o vai-e-vem das batalhas, as principais lideranças, os episódios mais polêmicos e as consequências políticas e sociais que seguiram fazendo barulho muito depois de 1845.

O objetivo é simples, mas não é pequeno: oferecer um ponto de entrada firme e confiável pra quem quer entender a Guerra dos Farrapos sem romantização excessiva e sem reduzir tudo a folclore regional. Aqui a ideia é separar o mito da história e mostrar por que essa “peleia” foi, na prática, um capítulo decisivo da formação histórica do Brasil.

Agora, ajeita o lenço, dá mais um gole no mate e vamos destrinchar essa presepada — porque história boa é aquela que a gente entende de verdade.

A Revolução Farroupilha (1835–1845) ocorreu durante o Período Regencial (1831–1840), marcado por instabilidade política após a abdicação de Dom Pedro I. Com o governo exercido por regentes, o poder central imperial ficou enfraquecido, gerando disputas políticas nas províncias e abrindo espaço para revoltas regionais.

No período, dois projetos políticos divergiam: a centralização imperial, defendida pelos conservadores, e a autonomia provincial, defendida pelos liberais. No Rio Grande do Sul, a insatisfação das elites estancieiras com a pouca autonomia administrativa e as políticas fiscais injustas do governo central contribuiu para o início da Guerra dos Farrapos.

O Ato Adicional de 1834 ampliou a autonomia das províncias ao criar assembleias legislativas locais, mas manteve a nomeação dos presidentes provinciais pelo governo central, gerando tensões contínuas entre as elites liberais gaúchas e os representantes do Império.

Assim, a Revolução Farroupilha surge como resultado das contradições do Período Regencial: fragilidade do Estado, insatisfação regional e disputa entre centralização e autonomia, moldando o conflito mais longo da história interna do Brasil.

A Revolução Farroupilha (1835–1845) teve causas múltiplas, interligando fatores econômicos, políticos e administrativos, e resultou do acúmulo de tensões estruturais no Rio Grande do Sul durante o Período Regencial.

Economia do charque e tributação imperial
A economia gaúcha no século XIX era centrada na produção de charque, essencial para alimentar a população escravizada nas regiões Sudeste e Nordeste do Brasil. Os produtores locais enfrentavam impostos internos elevados, enquanto o charque importado do Uruguai e da Argentina pagava taxas menores, tornando o produto estrangeiro mais competitivo. Essa política fiscal injusta, aliada à taxação elevada do gado da região platina, gerou insatisfação econômica e sentimento de abandono em relação ao governo central.

Marginalização política da província
Embora o Ato Adicional de 1834 tenha criado assembleias legislativas provinciais, os presidentes das províncias continuavam sendo nomeados pelo governo central. No Rio Grande do Sul, isso gerou conflitos constantes entre presidentes conservadores e uma assembleia liberal, reforçando a percepção de que a província era governada de forma distante e autoritária.

Autonomia provincial versus centralização imperial
O núcleo do conflito estava na tensão entre o desejo de autonomia provincial — controle sobre impostos, forças armadas regionais e administração local — e o temor imperial de fragmentação territorial. A resistência do governo central à autonomia provocou a radicalização do movimento, que evoluiu de disputas administrativas e fiscais para um conflito armado de grandes proporções, a Guerra dos Farrapos.

Revolução Farroupilha

O marco inicial da Revolução Farroupilha ocorreu em 20 de setembro de 1835, quando tropas lideradas por Bento Gonçalves da Silva tomaram Porto Alegre, depuseram o presidente da província nomeado pelo governo imperial e consolidaram o Combate da Ponte da Azenha, garantindo o controle da cidade. Esse episódio marca oficialmente o início da Guerra dos Farrapos e tornou-se símbolo central da identidade histórica e política do Rio Grande do Sul, celebrado anualmente como data cívica estadual.

Reivindicações iniciais do movimento farroupilha
Nos primeiros meses, os farroupilhas não defendiam a separação do Império, concentrando-se em demandas político-administrativas e econômicas:

  • Substituição do presidente da província alheio aos interesses locais;
  • Redução de impostos sobre charque e gado, base econômica regional;
  • Ampliação da autonomia administrativa e do controle sobre a gestão provincial.

O movimento tinha caráter reformista, buscando mudanças dentro da estrutura imperial, e não a ruptura imediata com o Estado brasileiro.

Reação imperial e expansão do conflito
O governo regencial reagiu rapidamente. Tropas imperiais retomaram Porto Alegre em 1836, mas os farroupilhas mantiveram o controle do interior do Rio Grande do Sul, contando com apoio de estancieiros, milícias locais e parte da população rural.

A guerra passou a se espalhar por vastas regiões da província, assumindo características de conflito prolongado e descentralizado, e a repressão imperial intensificou a radicalização do movimento, preparando o caminho para a proclamação da República Rio-Grandense.

Em 11 de setembro de 1836, após sucessivas vitórias militares no interior do Rio Grande do Sul, os farroupilhas proclamaram a República Rio-Grandense, com capital em Piratini. A medida marcou a transformação do movimento de uma reivindicação reformista dentro do Império para um projeto separatista e republicano, fruto da radicalização do conflito e da impossibilidade de negociação política com o governo central.

Estruturação do Estado Farroupilha
Com a proclamação, os farroupilhas iniciaram a organização de um Estado independente, implementando estruturas de governo próprias:

  • Formação de um governo republicano, com presidente, ministérios e administração estruturada;
  • Criação de um exército regular, responsável pela defesa do território e condução da guerra contra o Império;
  • Implantação de um sistema de arrecadação de impostos, garantindo recursos para a administração e o esforço militar;
  • Emissão de moeda própria, símbolo de soberania e autonomia econômica.

A República Rio-Grandense tornou-se, assim, uma experiência concreta de governo republicano no século XIX brasileiro, indo além do simbolismo político.

Busca por reconhecimento internacional
O novo Estado buscou legitimidade internacional, tentando firmar relações diplomáticas com países do Prata e potências europeias. O objetivo era obter apoio político, reconhecimento formal e facilitação de comércio.

Apesar das tentativas, a República Rio-Grandense não foi reconhecida oficialmente, permanecendo isolada no cenário internacional, o que limitou sua capacidade de negociação e aumentou sua vulnerabilidade frente ao poder militar e diplomático do Império do Brasil.

A Revolução Farroupilha contou com líderes civis e militares que articulavam interesses econômicos, atuação política e experiência militar. Predominantemente estancieiros e oficiais do Exército imperial, esses líderes garantiram a organização do movimento, mas também evidenciaram suas contradições sociais. Entre os principais nomes destacam-se:

Bento Gonçalves da Silva

Principal líder da Revolução Farroupilha, Bento Gonçalves articulou estratégias políticas e militares, liderou a tomada de Porto Alegre e organizou o governo farroupilha. Como presidente da República Rio-Grandense, tornou-se o símbolo central da liderança política e militar do movimento.

Antônio de Sousa Neto

Líder militar e político, Neto proclamou a República Rio-Grandense em 1836 após a vitória na Batalha do Seival. Diferenciava-se por defender a abolição da escravidão, gerando tensão com setores conservadores da elite farroupilha.

Giuseppe Garibaldi

Italiano, Garibaldi comandou a marinha farroupilha e participou de combates navais e operações ousadas, como o transporte de embarcações por terra. Sua experiência na Revolução Farroupilha foi decisiva para sua formação política e militar, posteriormente influenciando os movimentos de unificação da Itália.

David Canabarro

General do exército farroupilha, Canabarro liderou campanhas importantes e assinou o acordo que encerrou a guerra. Sua trajetória é marcada por controvérsias, incluindo envolvimento no Massacre de Porongos, que vitimou lanceiros negros no final do conflito.

General do exército farroupilha, Canabarro liderou campanhas importantes e assinou o acordo que encerrou a guerra. Sua trajetória é marcada por controvérsias, incluindo envolvimento no Massacre de Porongos, que vitimou lanceiros negros no final do conflito.

Lideranças e contradições sociais
As lideranças sustentaram quase uma década de conflito contra o Império do Brasil, mas refletiam uma elite agrária que buscava autonomia política mantendo a escravidão e estruturas sociais excludentes. Essas contradições ajudam a compreender tanto a força quanto os limites do projeto farroupilha.

Um dos aspectos mais complexos e historicamente sensíveis da Revolução Farroupilha foi a participação ativa de negros escravizados, libertos e indígenas no conflito. Esses grupos estiveram presentes desde os primeiros anos da guerra, desempenhando funções essenciais tanto nas tropas farroupilhas quanto, em menor escala, nas forças imperiais.

Os Lanceiros Negros constituíram uma das unidades mais emblemáticas do exército farroupilha. Formados majoritariamente por negros escravizados, esses combatentes foram incorporados às tropas rebeldes mediante a promessa de alforria em troca do serviço militar. Armados principalmente com lanças e utilizados em ações de cavalaria, tiveram participação decisiva em diversas batalhas da Revolução Farroupilha.

Apesar de sua relevância estratégica, a condição jurídica dos lanceiros era extremamente precária. A liberdade prometida raramente foi registrada em documentos oficiais, mantendo muitos combatentes negros em situação de insegurança legal durante e após a guerra. Estimativas historiográficas indicam que, em determinados momentos do conflito, cerca de um terço das forças farroupilhas era composto por homens negros.

O episódio mais violento envolvendo os Lanceiros Negros ocorreu em novembro de 1844, nos momentos finais da guerra, no chamado Massacre de Porongos. Durante negociações de paz entre farroupilhas e o governo imperial, um acampamento composto majoritariamente por soldados negros foi surpreendido por tropas imperiais, resultando na morte de mais de uma centena de combatentes.

Grande parte da historiografia interpreta o massacre como uma ação deliberada, cujo objetivo seria eliminar soldados negros armados antes da assinatura do acordo final de paz. O episódio revela de forma explícita as contradições da República Rio-Grandense, que defendia ideais republicanos e autonomia política, mas preservava a ordem escravocrata e os interesses das elites estancieiras.

Os povos indígenas, especialmente grupos guaranis das regiões missioneiras, também participaram da Guerra dos Farrapos, embora sua atuação seja frequentemente marginalizada. Esses indígenas atuaram como soldados, batedores, lanceiros e auxiliares logísticos, desempenhando papel fundamental na dinâmica militar do conflito.

A incorporação indígena ocorreu tanto de forma voluntária — motivada pela busca por proteção, armamentos e sobrevivência — quanto de maneira coercitiva, em um contexto de intensa militarização do território sulino. Assim como os negros, os indígenas combateram em ambos os lados do conflito, refletindo estratégias de adaptação e sobrevivência diante da guerra.

Apesar de sua contribuição, os indígenas não ascenderam a posições de comando e tampouco receberam reconhecimento político, terras ou garantias sociais após o término da revolução.

A participação de negros e indígenas evidencia um dos principais paradoxos da Revolução Farroupilha:

  • um movimento que combatia a centralização imperial e defendia a liberdade política;
  • mas que manteve a escravidão, a exclusão social e a concentração de poder nas mãos das elites agrárias.

Essas contradições explicam por que, apesar de sua longa duração e impacto militar, a revolução resultou principalmente em concessões políticas às elites rio-grandenses, sem promover transformações estruturais profundas na sociedade sul-brasileira.

Entre 1837 e 1844, a Guerra dos Farrapos entrou em sua fase mais longa e desgastante. O conflito deixou de ser marcado por ofensivas decisivas e passou a assumir características de guerra prolongada, baseada no controle territorial fragmentado, na mobilidade das tropas e no esgotamento progressivo de recursos humanos e econômicos.

Ao longo desse período, consolidou-se uma divisão estratégica clara:

  • Os farroupilhas dominaram amplas áreas rurais do interior da província, onde contavam com o apoio de estancieiros, milícias locais e maior mobilidade de cavalaria.
  • O Império manteve o controle das principais cidades, dos portos e do litoral, especialmente Porto Alegre e Rio Grande, garantindo acesso a suprimentos, reforços militares e rotas comerciais.

Essa configuração impediu vitórias definitivas de ambos os lados. Enquanto os farroupilhas conseguiam evitar derrotas completas, também não tinham força suficiente para consolidar um Estado plenamente funcional ou romper o bloqueio econômico imposto pelo governo imperial.

A partir de 1837, o conflito passou a ser caracterizado por:

  • escaramuças constantes
  • deslocamentos rápidos de tropas
  • ataques pontuais seguidos de recuos estratégicos

Os farroupilhas recorreram intensamente à guerra de guerrilha, aproveitando o conhecimento do território e a flexibilidade de suas forças. No entanto, a ausência de um porto marítimo e a dificuldade de arrecadação regular de impostos comprometeram a sustentabilidade econômica da República Rio-Grandense.

Do lado imperial, apesar da superioridade material, a manutenção de tropas por tantos anos em uma província extensa e pouco integrada também gerava altos custos financeiros e políticos.

Com o prolongamento da guerra, a economia regional entrou em colapso progressivo. A produção agropecuária foi afetada, o comércio interno diminuiu e a população civil passou a sofrer com:

  • requisições forçadas
  • destruição de propriedades
  • instabilidade constante

O entusiasmo inicial do movimento farroupilha foi gradualmente substituído pelo cansaço coletivo, tanto entre combatentes quanto entre civis. Muitos líderes passaram a considerar a possibilidade de negociação como alternativa à continuidade do conflito.

Outro fator decisivo para o enfraquecimento farroupilha foi o isolamento político. A República Rio-Grandense jamais obteve reconhecimento internacional formal, e o apoio de regiões vizinhas foi instável e limitado. Sem aliados estratégicos duradouros, o projeto republicano tornou-se cada vez mais difícil de sustentar.

Ao mesmo tempo, o governo imperial passou a adotar uma postura mais pragmática, combinando repressão militar com sinais de abertura para negociação, preparando o terreno para o encerramento do conflito.

Guerra dos Farrapos

A fase final da Guerra dos Farrapos foi marcada pela retomada da iniciativa imperial, já sob o comando direto do jovem imperador Dom Pedro II. Em 1842, o governo central nomeou o experiente militar Luís Alves de Lima e Silva para conduzir as operações no sul do país.

Diferentemente de seus antecessores, Caxias adotou uma estratégia baseada não apenas na força militar, mas também na negociação política, reconhecendo o desgaste prolongado de ambos os lados e a necessidade de pacificação definitiva da província.

Com as tropas farroupilhas enfraquecidas, a República Rio-Grandense isolada diplomaticamente e a economia regional profundamente afetada, abriram-se canais formais de negociação entre os líderes rebeldes e o governo imperial.

Essas tratativas culminaram na assinatura do Tratado de Poncho Verde, em 1º de março de 1845, encerrando oficialmente o mais longo conflito armado interno da história do Brasil.

O acordo estabeleceu concessões significativas aos líderes farroupilhas, garantindo:

  • Anistia geral aos rebeldes envolvidos no conflito
  • Incorporação de oficiais farroupilhas ao Exército imperial, com reconhecimento de patentes
  • Redução dos impostos sobre o charque produzido no Rio Grande do Sul
  • Compromisso de escolha de presidentes provinciais alinhados aos interesses locais

Essas medidas representaram uma vitória política das elites farroupilhas, que obtiveram praticamente todas as reivindicações iniciais que haviam motivado a revolta.

Apesar das concessões, o Tratado de Poncho Verde manteve intacta a estrutura social vigente. A escravidão foi preservada, e os grupos subalternos que haviam participado ativamente da guerra — especialmente os lanceiros negros e indígenas — não tiveram seus direitos garantidos.

Esse aspecto evidencia o caráter elitista do acordo e reforça a interpretação de que o encerramento da Revolução Farroupilha representou uma reconciliação entre elites regionais e o poder imperial, sem promover transformações sociais profundas.

As consequências da Revolução Farroupilha foram profundas e duradouras, tanto para o Rio Grande do Sul quanto para o Império do Brasil. Embora o conflito não tenha resultado na fragmentação territorial do país, ele produziu impactos políticos, institucionais, sociais e simbólicos que influenciaram diretamente o processo de consolidação do Estado imperial brasileiro.

Paradoxalmente, uma revolta motivada pela busca de maior autonomia provincial contribuiu para o fortalecimento do poder central. Após o encerramento do conflito, o governo imperial adotou uma postura mais cautelosa e estratégica na administração das províncias, equilibrando concessões políticas com maior controle institucional.

A experiência farroupilha reforçou no Império a percepção de que a negociação com elites regionais era mais eficaz do que a repressão prolongada, lição aplicada em conflitos posteriores.

Consolidação da identidade regional gaúcha

Uma das consequências mais visíveis da Revolução Farroupilha foi a consolidação de uma identidade regional forte no Rio Grande do Sul. O conflito passou a ser reinterpretado como uma epopeia de resistência, coragem e defesa da autonomia local.

Símbolos como:

  • o 20 de setembro,
  • a bandeira estadual,
  • e a memória dos líderes farroupilhas

tornaram-se elementos centrais da cultura política e da identidade gaúcha, permanecendo vivos até os dias atuais.

A República Rio-Grandense representou a mais longa experiência republicana armada em território brasileiro durante o Império. Mesmo sem reconhecimento internacional, ela demonstrou que era possível organizar estruturas de Estado fora do modelo monárquico vigente.

Essa experiência influenciou o debate político nacional e contribuiu para a maturação de ideias republicanas que ganhariam força na segunda metade do século XIX, culminando na Proclamação da República em 1889.

Talvez a consequência mais reveladora da Revolução Farroupilha tenha sido a exposição das contradições do liberalismo oitocentista brasileiro. Embora o movimento defendesse liberdade política, autonomia e republicanismo, manteve:

  • a escravidão,
  • a exclusão social,
  • e a concentração de poder nas elites agrárias

Negros, indígenas e camadas populares, apesar de sua participação decisiva no conflito, foram amplamente marginalizados no acordo de paz e no período pós-guerra.

A Guerra dos Farrapos não fragmentou o Brasil, mas influenciou profundamente a política imperial nas décadas seguintes. O conflito contribuiu para:

  • a consolidação do Segundo Reinado,
  • o fortalecimento da figura de Dom Pedro II como mediador político,
  • e a formulação de uma estratégia de conciliação entre centro e províncias

Nesse sentido, a Revolução Farroupilha foi menos um fracasso separatista e mais um episódio formador do Estado nacional brasileiro.

A Revolução Farroupilha ocupa um lugar singular na história do Brasil imperial não apenas por sua longa duração, mas por aquilo que revelou sobre os limites e possibilidades do Estado nacional em formação. Mais do que um episódio militar, o conflito expôs as tensões estruturais entre centralização política e demandas regionais, antecipando debates que permaneceriam centrais ao longo do século XIX e que ainda ecoam na organização federativa brasileira.

Do ponto de vista institucional, a experiência farroupilha contribuiu para moldar a relação entre o poder central e as províncias. A solução negociada do conflito demonstrou que a estabilidade do Império dependia menos da repressão absoluta e mais da capacidade de acomodar interesses das elites regionais. Essa lógica de conciliação política tornou-se um dos pilares do Segundo Reinado e influenciou, posteriormente, o desenho do federalismo brasileiro na República, ainda que em bases distintas das defendidas pelos farroupilhas.

No plano das ideias políticas, a República Rio-Grandense representou uma experiência republicana concreta em pleno período monárquico. Embora limitada socialmente e sem reconhecimento internacional, ela contribuiu para manter vivo o debate republicano no Brasil, oferecendo referências simbólicas e institucionais que seriam retomadas décadas depois. Nesse sentido, a Revolução Farroupilha não pode ser vista apenas como uma revolta derrotada, mas como parte do processo de amadurecimento político que culminaria na queda da monarquia em 1889.

Ao mesmo tempo, o conflito evidenciou as contradições profundas do liberalismo oitocentista brasileiro. A defesa de autonomia, liberdade política e republicanismo conviveu com a manutenção da escravidão e da exclusão social. Negros e indígenas, fundamentais para a sustentação militar da guerra, permaneceram à margem das conquistas políticas do pós-guerra, revelando que a revolução operou prioritariamente como um pacto entre elites, e não como um projeto de transformação social ampla.

Por fim, a Revolução Farroupilha deixou um legado simbólico duradouro. O mito farroupilha — construído ao longo do tempo por narrativas históricas, celebrações cívicas e usos políticos da memória — tornou-se um elemento central da identidade regional gaúcha. Essa memória seletiva, marcada por heroísmo e resistência, segue sendo mobilizada no debate político e cultural do Rio Grande do Sul, demonstrando que o impacto da revolução ultrapassa o século XIX e continua a influenciar a forma como a região se percebe dentro do Brasil.

Assim, a Revolução Farroupilha deve ser compreendida menos como um fracasso separatista e mais como um episódio formador, que revelou as tensões constitutivas do Estado brasileiro, os limites do liberalismo imperial e a força duradoura da identidade regional na história política do país.

Obrigado por dedicar seu tempo à leitura deste artigo. Esperamos que o conteúdo tenha sido claro, útil e que tenha ajudado você a compreender melhor a Revolução Farroupilha. Se este texto despertou novas perguntas ou curiosidade, considere explorar os materiais complementares e continuar estudando a história do Brasil — ela sempre tem muito a ensinar.

Links e leituras complementares

Para aprofundar o estudo sobre a Revolução Farroupilha, consulte também materiais externos de referência, como acervos históricos, documentos oficiais e conteúdos acadêmicos que ampliam o contexto apresentado neste guia. Esses links oferecem diferentes perspectivas, fontes primárias e análises especializadas sobre o tema.

Fontes externas:

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